Sou engenheiro de obra. Sempre fui engenheiro de obra, desde que me formei. Mas quando eu fazia faculdade eu nunca quis ser engenheiro de obra. Queria ser engenheiro de projetos, planejamento, saneamento, estudar cidades, planejar cidades (adoro SimCity), enfim, qualquer coisa menos obra. Tudo porque eu sabia que era muito tímido, não tinha facilidade para lidar com gente, qualquer tipo de pessoa me trazia um incômodo no sentido de não saber o que fazer. Por causa disso, quando tive que escolher onde faria estágio eu pensei: “Quero trabalhar  em projetos ou na área de planejamento. Obra não é para mim! Porém, se eu vou para essas áreas mais específicas, eu preciso saber um pouco de obra para não fazer besteiras. Imagina se eu especifico uma armação para um pilar que, na prática, é impossível de executar?” Desta maneira, com um pouco de medo, muito receio e com absoluta certeza de que eu seria um desastre em obra fui fazer estágio. Gostei, adorei. E quando percebi, aquela timidez já não me atrapalhava muito.

Porém, uma coisa sempre me chamou a atenção. Eu nunca fui preparado para gerenciar pessoas e, acreditem ou não, ser engenheiro de obra é nada mais nada menos do que gerenciar pessoas. Uma equipe motivada tem grandes chances de atingir muitos objetivos e concluir a obra no prazo, com custo controlado, com segurança e também com qualidade. Temos que saber nos colocar no papel do outro, para entender sua individualidade, administrar conflitos, entender um simples desabafo de um estagiário, entender os diferentes pontos de vistas das diferentes pessoas que trabalham com você, auxiliar cada funcionário no seu crescimento profissional, desenvolver talentos, extrair o melhor de cada colaborador…São muitas as atribuições dos engenheiros e a gestão de pessoas é uma delas que considero muito importante.

Mas como fazer para gerenciar pessoas se isso não é aprendido na faculdade? Eu tive a sorte de trabalhar com grandes líderes que me ensinaram muito sobre isso. Ao mesmo tempo, trabalhei com outras pessoas que me ensinaram o que não fazer. Acho que isso foi o que ajudou, a mistura do que fazer com o que não fazer transformou os meus métodos e meu jeito de lidar com os funcionários. Além disso, eu participei de várias atividades que me auxiliaram a desenvolver liderança. Já fui escoteiro, já participei de diversos campeonatos de futebol, joguei futebol americano, participei de empresa júnior. Essas atividades fazem com que você se desenvolva como pessoa, como líder e principalmente o trabalho em equipe. Porém, fica aqui minha crítica. Os cursos de engenharia civil deveriam ter uma matéria que seja para que os alunos não saiam da faculdade sem nunca terem aprendido nada a respeito de gestão de pessoas. Já vi casos de engenheiro que me disse que iria estudar livros de como treinar animais porque ser chefe é a mesma coisa. Eu achei tão absurda essa frase… Se tivéssemos aulas sobre esse assunto talvez isso não seria algo comum e talvez até a produtividade das empresas melhorariam pois teríamos mais líderes e menos chefes. Aulas sobre a importância de ser líder também seria interessantíssimo, assim como algo sobre a importância da comunicação no ambiente de trabalho (seja obra ou não). O que já vi de absurdos em obra porque houve um telefone sem fio que atrapalhou todo o andamento da obra… Acho que esse tipo de matéria seria muito importante e traria muitos benefícios para o futuro desses engenheiros.

Para me ajudar com essas dificuldades, além das experiências acima, fiz uma pós graduação em Administração que me auxiliou muito no sentido de ver o outro lado da moeda. Como engenharia civil é uma área muito técnica acredito que a pós graduação me ajudou a ver o lado das pessoas, um pouco mais humano. Para quem tiver interesse, vale a pena.

Alguns livros que eu li e que valem a pena para ajudar a entender como trabalhar em equipe:

  • Transformando Suor em Ouro – Bernardinho;
  • O Monge e o Executivo – James Hunter.

Algumas histórias de fatos que aconteceram comigo valem a pena ser comentados nesse post:

  • Não Mude o jeito que você é: Logo quando eu estava para me formar, eu trabalhei numa obra em questão, por decisão estratégica, tínhamos uma equipe de 40 ajudantes que estavam sendo preparados para serem classificados para montadores de forma metálica). Eu tinha um ótimo relacionamento com eles muito porque eu era um dos estagiários que conferia o serviço deles e, por ser uma técnica nova na época, tínhamos treinamentos juntos, fomos visitar outras obras juntos e acabamos criando uma certa amizade com alguns deles. Duas coisas aconteciam nessa obra que me fazem pensar até hoje. A primeira é que, algumas vezes no mês (normalmente quando tinha feijoada) eu ia almoçar no refeitório da obra. Achava isso normal, afinal, comi durante quase que a faculdade inteira no Restaurante Universitário. Mas eu percebia que para eles isso não era comum. Eles achavam que comer com eles era algo estranho, como se eu tivesse transgredindo uma regra. Eles gostavam disso e me consideravam um cara bacana muito por causa disso. Estranho né? Não fazia nada de mais. Eu apenas estava sentando ao lado deles para almoçar….. Outra coisa que me chamou atenção nessa obra foi que certa vez tive que ir comprar um prego diferente (para mim, naquela época, todo prego era diferente) e, por causa disso, um dos ajudantes foi comigo até o depósito que ficava a uns dois quarteirões. E no caminho de volta ele me falou algo que sempre ficará na minha memória: “Espero que você, quando se formar engenheiro, nunca mude. Normalmente, os engenheiros, quando se formam, se transformam e não dão mais valor para nós, ajudantes. Tem engenheiro que nem dá bom dia, que acha que a gente não é gente”. Aquela frase cortou meu coração. E eu guardo ela até hoje. Porque ele não queria que o engenheiro fosse amigo dele. Ele queria um simples bom dia.
  • Festa de Aniversário: Há uns dois anos, fizemos um aniversário surpresa para nosso almoxarife, assim como já havíamos feito para os estagiários da obra. Compramos um bolo, um presente e rachamos o valor em todos da engenharia (engenheiro, estagiários, administrativo e encarregados). Chamamos o almoxarife para “fazer uma reunião”. Como sempre fazíamos isso ele não se tocou. Mas no momento que entrou na sala e todos começaram a cantar parabéns foi bem legal! A cara de surpresa e felicidade dele foi muito bacana! Cantamos parabéns, fizemos algumas brincadeiras, ele cortou o bolo, deu o primeiro pedaço… Até aí tudo normal… Quando estávamos todos mais quietos (mais em função do bolo que cada um comia do que pela falta de assunto) que ele disse: “nossa, foi a primeira vez que cantaram parabéns para mim”. Esse fato me marcou muito. Foi um pequeno gesto, não foi um esforço gigantesco. Foi uma coisa divertida para todos e que ficou especialmente marcado para ele. E para mim também!
  • Prêmio Encarregado do Mês: Em uma obra um pouco maior (não faço isso em obras pequenas porque acaba sendo sempre os mesmos funcionários) tínhamos vários encarregados e todos os serviços acabavam dando muito mais trabalho do que gostaríamos. Era encarregado que não conferia o serviço, era líder de equipe que não queria dar um treinamento para seus funcionários, ou simplesmente um mestre de obra que não gostava de participar das reuniões de segurança, por exemplo. Tínhamos muitas dificuldades para alinhar as idéias e discutir o que fazer para melhorar o andamento da obra. Foi então que surgiu a ideia de premiarmos um encarregado do mês. Consistia assim: todo mês escolhíamos através de uma reunião entre os dois engenheiros, os seis estagiários e os nossos encarregados (da empresa que eu trabalhava) quais encarregados mereciam ganhar um prêmio por seu desempenho durante aquele mês. Avaliávamos tanto a parte técnica (se a equipe estava fazendo os serviços corretamente e nossas notas de qualidade eram boas) até coisas mais subjetivas como se ele estava atendendo às solicitações da equipe de engenharia da obra, se eles tinham um bom relacionamento com os outros encarregados das outras empresas, etc… Todo mês pagávamos o total de R$ 100,00 para esse encarregado do mês. Mas não pagávamos em dinheiro. Ele poderia escolher se queria esse dinheiro em carne, em cesta básica ou em outro material qualquer. Também não deixávamos ele pedir em bebidas. Depois de escolhido nós fazíamos a reunião de empreiteiros (fazíamos essa reunião toda semana) e no final dela informávamos que neste mês o vencedor do prêmio era fulano. Foi incrível. Depois que começamos a fazer isso os funcionários começaram a nos ajudar mais, a respeitar as outras empresas e os serviços começaram a fluir melhor e com mais qualidade. Mas o que mais me marcou foram os discursos. Era visível que assim que a pessoa era escolhida o encarregado do mês ela ficava feliz e dava e eles sempre faziam questão de falar que estavam trabalhando para ganhar o prêmio (eu achava no começo que eles nem ligavam mas depois percebi que isso era importante para eles também). Teve encarregado que deu até um churrasco para a própria equipe e disse que se não fosse por eles ele não ganharia. Foi uma forma simples e barata de deixar em ordem uma obra que estava começando a ficar bagunçada.
  • A doença dos familiares: Certo dia, estava acompanhando a técnica de segurança em sua vistoria pela obra quando avistamos um funcionário terceirizado trabalhando na pintura do gradil. Esse funcionário estava muito cabisbaixo, triste, pintando o gradil lentamente. Eu, com toda a minha insensibilidade não havia percebido isso, achava apenas que ele estava pintando lentamente em função da idade (ele deve ter mais de 60 anos). Além do mais, esse era um funcionário que tinha um histórico de faltas alto. Porém, a técnica de segurança, uma pessoa que tem uma visão aguçadíssima para esse tipo de coisa foi lá falar com ele. Ela perguntou porque ele estava tão triste, se estava precisando de alguma coisa. Foi então que ele falou: “Sabe o que é? Minha mulher está doente e eu não tenho com quem deixar ela. Se eu não vier trabalhar, não consigo pagar as contas de casa mas eu venho, fico pensando nela enquanto estou aqui e por isso fico triste”. Esse funcionário saía todo dia depois do almoço para ficar com sua esposa. Imagina se o chefe dele tivesse mandado embora por causa dessas faltas ou dessas saídas mais cedo? Esse tipo de coisa nós só começamos a pensar depois que nos deparamos com uma situação dessas mas infelizmente, se não tivermos esse tipo de exemplo a primeira coisa que passa na cabeça é pedir para substituir o funcionário ou mandar embora. Temos que nos sensibilizar com as pessoas. Será que tal funcionário não cumpriu uma meta porque está com um problema pessoal? Pode ser que uma simples conversa possa fazer com que ele se sinta melhor e consiga fazer seu trabalho.

A imagem abaixo eu peguei do site Equipe de Obra. Caso tenham interesse, entrem e entendam um pouco mais sobre Gestão de Pessoas em obra.

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Crédito: http://equipedeobra.pini.com.br/construcao-reforma/49/como-liderar-pessoas-muitas-vezes-engenheiros-e-mestres-de-261026-1.aspx

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