Como sabemos, a areia utilizada em construção civil é proveniente, em sua maioria dos casos, dos rios. Isso acaba gerando assoreamento dos mesmos e, além disso, em muitos estados brasileiros já existe casos de escassez deste tipo de material. Preocupados com essa escassez cada vez mais iminente e, aliado com a ideia de utilizar o resíduo do bagaço da cana de açúcar na construção civil dando um destino mais sustentável  e com valor agregado ao material, pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) desenvolveram uma forma de transformar o bagaço da cana-de-açúcar em areia para a construção civil. Eles afirmam que o uso do material aumenta a durabilidade de concretos e argamassas, além de beneficiar o meio ambiente.

A areia da cinza do bagaço da cana, ou ACBC, é pesquisada no campus de São Carlos (SP) desde 2008, sob orientação do professor Dr. Almir Sales, líder do Grupo de Estudos em Sustentabilidade e Eco-eficiência em Construção Civil e Urbana (Gesec). O professor já tem publicada vários outras pesquisas relacionadas a utilização de resíduos no desenvolvimento de materiais e componentes de construção civil. De acordo com ele, foi o próprio grupo de pesquisa que escolheu o termo ACBC para definir o material e desde então a nomenclatura vem sendo adotada por outros pesquisadores e em diferentes publicações. “O nome geralmente utilizado nas usinas é simplesmente ‘cinza do bagaço de cana’, todavia, observamos que a maior parte desse resíduo possuía granulometria e grande quantidade sílica, então resolvemos chamar de Areia de Cinza do Bagaço de Cana, ACBC, por ser mais representativo”, contou.

Segundo o grupo, o uso da ACBC diminui o impacto do setor de construção civil no meio ambiente, já que a extração da areia natural pode levar ao assoreamento e degradação dos cursos d’água e à remoção da vegetação, e evita o depósito das cinzas no solo, prática apontada por estudos anteriores como contaminante em determinados casos.

O artigo “Sugarcane Bagasse Ash Sand (Sbas): Brazilian Agroindustrial By-Product For Use In Mortar”, de autoria do pesquisador Fernando do Couto Rosa Almeida, foi escolhido o vencedor do prêmio Capes Natura-Campus de Excelência em Pesquisa no tema “Sustentabilidade: novos materiais e tecnologias”. O prêmio foi entregue no final de 2016 e os cientistas agora testam a confiabilidade do material em estruturas de concreto armado.

Publicado no periódico Construction Building Material, o artigo traz informações técnicas sobre o desenvolvimento de um novo material, um resíduo da extração de cana de açúcar que pode substituir a areia de construção utilizada para a fabricação de concretos e argamassas.

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O artigo orientado por Almir Salles traz informações técnicas para o desenvolvimento de um resíduo da extração de cana de açúcar que pode substituir a areia utilizada na construção (Foto: Natália Morato – CCS/Capes)

O orientador da pesquisa e professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Almir Sales, que recebeu o prêmio em nome de Fernando, explicou que o desenvolvimento do novo material tem potencial de resolução de um duplo problema ambiental. “O material residual da produção do álcool e do açúcar é gerado na ordem de milhões de toneladas ao ano, o que constitui grave passivo ambiental. Por outro lado, a areia já está escassa em muitos estados, porque a areia de construção, em sua maior parte, é retirada dos nossos rios, o que gera assoreamento, estando, inclusive, proibida a abertura de novas lavras deste material. O resíduo da queima da cana pode, então, se tornar uma alternativa com valor agregado, substituindo a areia.”

A técnica

Segundo o professor, a técnica utilizada para chegar à ACBC é simples. “No processamento da cana, as diferentes etapas vão gerando partículas de diversas dimensões, desde a cinza pesada à leve e também a areia que vem em grande quantidade nos colmos da cana, principalmente na colheita mecanizada. O procedimento “pós-cinza” é apenas deixar a granulometria mais próxima da areia natural, para isso é necessário um tratamento de peneiramento e moagem”, afirmou.

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Fernando Almeida e o professor Almir Sales (Foto: Fabricio Mazocco/CCS-UFSCar)

“Do processo de produção do açúcar e etanol é gerado o bagaço da cana. Esse, por sua vez, é queimado nas caldeiras, de forma controlada, para cogeração de energia elétrica nas usinas. O resíduo gerado a partir dessa queima é chamado de ACBC e geralmente é depositado nas lavouras, mesmo sendo pobre em nutrientes”, complementou o doutorando Fernando do Couto Rosa Almeida, um dos integrantes do grupo de pesquisa.

Os melhores resultados para aplicação do material em concretos e argamassas foram notados, segundo Almeida, quando houve a substituição de 30% da areia natural pela ACBC. “Além das vantagens ambientais, a substituição da areia natural pela ACBC, em especial até 30%, pode levar à manutenção das propriedades mecânicas, preenchimento dos microporos e aumento da durabilidade de concretos e argamassas”, disse o pesquisador.

“Traduzindo, é possível conseguir um concreto tão resistente quanto um concreto convencional, porém mais durável. Como o resíduo é mais fino do que a areia convencional utilizada, ele consegue diminuir a porosidade do concreto, dificultando a degradação”.

Continuidade

Apesar de já pesquisada por algumas pessoas ao redor do mundo, a ACBC normalmente é utilizada nesses estudos como substituta do cimento, não da areia. Com relação o custo de produção, ele afirmou que um levantamento da pesquisadora Sofia Bressa mostrou que o concreto com ACBC é comparável a um concreto convencional e consegue ser ligeiramente mais barato quando analisado pelo Índice Custo/Resistência, levando-se em conta que, como maior produtor mundial de cana-de-açúcar, o Brasil gera atualmente milhões de toneladas de resíduos e, como a maior parte disso provém do Estado de São Paulo, a inserção da pesquisa em uma universidade paulista pode contribuir para o desenvolvimento da economia regional.

“Atualmente, estamos com uma grande verificação da durabilidade no quesito corrosão, ou seja, se esse novo material poderá ser usado com confiabilidade em estruturas de concreto armado. Finalizando esses estudos, estimo de 1 a 2 anos, teremos praticamente verificado o conhecimento que possa balizar a normalização e uso da ACBC em argamassas e concretos”, afirmou Sales.

O orientador contou que algumas empresas têm procurado o grupo, mas elas geralmente querem o produto final e a produção do Gesec é laboratorial, não de grande escala.

“Acredito que, se alguma empresa do ramo sucroalcooleiro ou do ramo da construção civil investir nessa tecnologia, provavelmente sairá na frente em termos de lucratividade com respeito ao meio ambiente”, afirmou.

As companhias interessadas em desenvolver e aplicar a pesquisa podem entrar em contato pelo telefone (16) 3351-9659 ou pelo e-mail almir@ufscar.br.

Está aí uma ótima oportunidade de investimento!

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Fontes:

 

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