Espaços têm menos parede e mais convívio entre profissionais

Para muitos, é hora do adeus ao porta-retratos da família sobre a mesa de trabalho. As salas fechadas se foram. Chefes se sentam junto às equipes. As reuniões são feitas por videoconferência, na varanda, num grupo de poltronas. O café pode casar com jogos, além de bate-papos com colegas de outra área, de outra empresa, de outro setor. E que pode trazer novos projetos ou negócios. Os coworkings são ícones dessa nova arquitetura do trabalho, que busca acelerar projetos e produtividade. O segmento cresceu 114% em um ano, batendo mais de 800 espaços em fevereiro, segundo a Coworking Brasil.

Não à toa, a americana WeWork, uma das grandes no setor, fincou bandeira por aqui em julho. Já tem dois espaços em São Paulo e vai abrir mais dois até o fim do ano, enquanto se prepara para inaugurar três unidades no Rio entre dezembro e fevereiro. Grupos brasileiros acompanham o movimento. A paranaense Nex estima saltar de duas para 22 unidades no país em 24 meses, incluindo mais duas no Rio, entre Centro e Botafogo, além da atual, que fica na Glória

— O Brasil é, hoje, o país de crescimento mais acelerado pela WeWork no mundo. Com a cultura brasileira, não é preciso explicar o conceito de comunidade. Ao combinar com um serviço de ponta e preço competitivo, funciona, amplia a rede de negócios de quem entra na rede — explica Lucas Mendes, gerente geral da WeWork no Brasil.

MUDANÇA DO MODELO TRADICIONAL

Mendes é exemplo das oportunidades que a rede de parceiros pode oferecer. Hoje, aos 30 anos, ele foi um dos idealizadores do Cubo, projeto de Itaú Unibanco com o fundo Redpoint e.ventures, aberto em São Paulo em 2015 para promover o empreendedorismo tecnológico. Foi na primeira experiência com o conceito de comunidade, em 2013, quando fazia pesquisas para o Cubo, que conheceu a WeWork.

O coworking já é escolha conhecida de pequenos empreendedores, start-ups e freelancers, normalmente pressionados pela escassez de recursos para bancar uma sede própria. Mas já há grupos com centenas de funcionários instalados em espaços compartilhados de trabalho. Para esses grandes, o objetivo tende mais ao potencial de geração de negócios e oportunidades trazidos pela comunidade de empresas. Em paralelo, companhias como o site OLX e a consultoria EY readequaram suas instalações ao novo modelo colaborativo.

— É uma revolução na forma como se pensa o espaço de trabalho, uma quebra de paradigma. Primeiro, as empresas aprenderam a derrubar paredes. Agora, temos ainda a integração, a inovação, redefinindo a forma como se trabalha — explica Marcia Fonseca, diretora da consultoria imobiliária Colliers no Rio de Janeiro.

Na prática, o ambiente é mais colorido, descontraído, com as chamadas áreas de descompressão — que podem contar ou não com jogos diversos, como totó e pingue-pongue. São pontos que ajudam a relaxar, mas também estimulam a integração entre as pessoas, sejam elas de uma mesma ou de diversas empresas.

— Atualmente, esse modelo já faz sentido para muitas empresas. Em breve, vai fazer sentido para todas. O coworking tira a empresa do isolamento e a conecta a uma comunidade de realizadores. Esse ecossistema é muito valioso — explica André Pegorer, sócio da Nex. — Existe um movimento de ressignificação da relação das pessoas com o trabalho. As empresas estão remodelando seus espaços para transformar a cultura do trabalho, e o espaço físico tem papel importante nisso.

Ele pontua que os espaços de coworking funcionam como um escritório de serviços, que garante a infraestrutura, liberando a empresa para ficar inteiramente focada em sua atividade-fim:

— Já temos diálogo com empresas com demanda para 150 colaboradores. A maioria está saindo de um modelo tradicional de trabalho e escritório.

Pesquisa da consultoria JLL mostra que os avanços tecnológicos e a análise de dados estão no motor da transformação do espaço de trabalho. A mudança organizacional vem ao lado de outras, como as sociais e culturais, trazidas pelo avanço acelerado da tecnologia. O resultado são novas formas de trabalhar e de se comportar no trabalho, afetando a forma como os negócios são estruturados e geridos, além da maneira como os profissionais usam seu espaço de trabalho. Lá na ponta, isso garante maior produtividade às corporações.

IMPULSO DAS GERAÇÕES Y E Z

De braços dados com o avanço tecnológico estão as gerações Y e Z. Elas são outro pilar desse novo cenário, destaca Luiz Sérgio Vieira, presidente da EY no Brasil. A sede da empresa em São Paulo passou por uma completa reformulação, para se adequar ao modelo já adotado na consultoria em outros países, como Estados Unidos, Itália e Reino Unido.

— Estudamos essa geração, que busca, sobretudo, flexibilidade e novas formas de trabalho, mais colaborativas, que quebram a hierarquia, para atrair mais criatividade ao ambiente de trabalho. O ajuste do espaço físico é uma forma de casar o ambiente com essa nova forma de trabalhar. Além disso, também estamos em um prédio mais moderno e sustentável. É um conjunto de mudanças — conta Vieira.

A EY tem uma equipe de 2.700 colaboradores em São Paulo. Mas optou por uma área 20% menor ao fazer a mudança, com um espaço que totaliza 1.450 postos de trabalho, que não são fixos. A cada dia o funcionário pode sentar num lugar diferente, de acordo com a disponibilidade ou com o projeto que ele está tocando. Como a equipe tem profissionais em viagens constantes, visitando clientes ou em trabalho remoto, ficam no escritório pouco mais de um terço dos funcionários. A reorganização trouxe resultado.

— Em custos, acredito que ficou estável, ou conseguimos uma pequena redução. Ao mesmo tempo, nos tornamos mais eficientes e demos um salto em qualidade. Flexibilidade no trabalho não significa trabalhar menos, mas trabalhar de forma mais eficiente e produtiva — explica o executivo da EY.

Texto de: GLAUCE CAVALCANTIO Globo, 01/10/2017 – 04H30

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