Engenheiro diz tudo o que pode acontecer com quem usa “alternativa-gambiarra” no tanque.

Greve de caminhoneiros, estradas fechadas, falta de combustível nos postos: a receita do caos brasileiro da última semana tem desencadeado relatos nas redes sociais e também casos bem reais de pessoas que usam produtos alternativos para manter o veículo rodando na escassez. Gente que usou ou pensa em colocar no tanque álcool de limpeza, bebida, metanol e até apelar para óleo de cozinha ou de mamona em motores a diesel, por exemplo. Pode isso?

UOL Carros conversou com engenheiro especialista e alerta: essas gambiarras até podem fazer o carro andar em emergência, mas o efeito colateral é gravíssimo: danos ao motor e a outros componentes essenciais podem dar prejuízo bem mais alto do que apelar ao táxi, Uber, bicicleta ou mesmo ir a pé. Se liga!

É greve, não guerra

“Não é recomendado utilizar nenhum combustível que não seja o especificado pela fabricante, que segue parâmetros e características definidos pela ANP (Agência Nacional do Petróleo), que as montadoras seguem no desenvolvimento do veículo. Não estamos em situação de guerra, é melhor esperar a situação se normalizar e usar o veículo apenas apenas em necessidade”, alerta Henrique Pereira, membro da comissão técnica de motores Ciclo Otto da SAE Brasil.

Tudo bem, mas o que acontece na prática com quem usar alternativas-gambiarras no tanque do carro? Vamos lá:

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1. Álcool de limpeza (hidratado), álcool de farmácia, metanol

Seu uso não é indicado por conta da alta concentração de água. “Até pode fazer o motor funcionar, ainda por cima se for diluído ao etanol que ainda está no tanque. Porém, o etanol hidratado com o que você abastece na bomba traz 7% de água, enquanto o álcool de limpeza pode ter 50% ou mais”, aponta Pereira. “É como se você abastecesse com etanol ‘batizado’, porém com muito mais água”, destaca o engenheiro.

De acordo com ele, a água em excesso pode até causar o famoso (e temido) calço hidráulico no motor, especialmente quando ele é ligado ainda frio: “A água não comprime e pode estragar pistões, bielas e até danificar o bloco do motor, além de prejudicar a lubrificação e elevar o consumo”. De acordo com Pereira, a regra vale para outros tipos de álcool, embora alguns mais puros, como o farmacêutico e o anidro (sem água), aquele que é adicionado à gasolina, poderiam fazer o carro andar, mas o risco, segundo ele, não compensa. “Metanol, por exemplo, já chegou a ser usado oficialmente nas bombas no passado, em tempos de falta do etanol, porém é um produto perigoso à saúde, com comércio controlado”, explica.

2. Meu “goró” no tanque, pode?

Colocar pinga, uísque ou bebida alcoólica também é uma furada, segundo o engenheiro. “Além do maior teor de água, que inclusive pode impedir a queima do álcool presente na bebida, bebidas existem outras substâncias que não combinam com um motor de combustão”, aponta Pereira. Açúcares das bebidas, por exemplo, formam uma “goma” na parte interna do propulsor sob temperatura elevada, danificando componentes.

3. Óleo de fritura, óleo de mamona

Quanto ao uso de óleo de cozinha ou óleo de mamona no lugar do diesel, Henrique Pereira lembra que esses óleos de fato são utilizados para produzir biodiesel, mas in natura não têm as especificações de queima e viscosidade adequadas. O uso de qualquer um desses itens só é possível após passarem por um processo de transformação química.

Mesmo misturados no diesel, esses óleos não vão queimar e podem entupir bicos injetores, causando grande prejuízo. “Vale lembrar que o percentual biodiesel processado no abastecimento não passa de 20% na mistura com o diesel convencional”, calcula o engnheiro.

4. E querosene?

Misturar querosene à pouca gasolina no tanque ou mesmo encher o tanque do carro de querosene, pode? Fica a dica e o lembrete sem ambiguidade: o querosene que você compra para diversos serviços é um solvente, bem diferente do querosene de aviação.

E colocar solvente no tanque do carro equivale a deliberadamente adulterar o próprio combustível. “Postos irregulares fazem exatamente isso para aumentar o volume de gasolina comprada da distribuidora para aumentar os lucros, mas o solvente danifica várias peças, especialmente borrachas e plásticos, que são corroídos, além de aumentar o gasto do combustível”, lista Henrique Pereira.

“Tem gente achando que o querosene comprado em ferragens, por exemplo, é o mesmo usado em aviões, mas não é verdade. Não dá para trocar a gasolina por ele”.

Texto de: ALESSANDRO REIS, Mão na Roda – Colaboração para UOL em São Paulo, 28/05/2018 as 15:22 horas

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