Advertisements

Oportunidades e desafios para engenheiros civis no meio rural

Trabalho há pouco mais de quatro anos entre estágio e carreira profissional com projetos de licenciamento de uso de recursos hídricos e infraestrutura rural. Neste período conheci algumas dezenas de pequenos, médios e alguns grandes produtores rurais e pude acompanhar de perto a dinâmica de produção e licenciamento de infraestrutura das propriedades e como a ausência de engenheiros civis à frente destes processos impacta o desempenho destas propriedades.

É muito comum encontrar clientes que estão adequando sua infraestrutura por exigência de processo ambiental iniciado a partir de autuação da polícia ambiental, notificação de órgão ambiental ou da promotoria, por exigência de compradores ou porque o cartório exige a documentação para algum trâmite administrativo. Também é comum que o licenciamento tenha sido iniciado por conta de um crédito agrícola. Hoje, por força de norma do Banco Central, é praticamente impossível um produtor rural conseguir crédito bancário sem apresentar as licenças ambientais do imóvel ao banco.

Embora se fale muito em mecanização e organização empresarial, esta é uma descrição que se aplica melhor às grandes propriedades. A maioria das propriedades, pequenas ou médias, são tocadas de maneira familiar por proprietários ou arrendatários. Para esta parcela dos produtores os lucros são menores e a necessidade de financiamento externo maior. O dinheiro empenhado em infraestrutura e licenciamento é visto como custo e não como investimento e esta visão faz com que se protele ao máximo ou contrate a preço baixo pessoas ou empresas sem a devida qualificação para a solução de problemas de infraestrutura à medida em que eles ameaçam parar a produção.

Este modo de gerir a infraestrutura da propriedade faz com que redes e equipamentos fiquem tão obsoletos que lá na frente vão dificultar e encarecer o projeto de adequação. Em casos extremos a infraestrutura existente é tão inadequada que precisa ser abandonada pois a sua adequação seria mais cara que a construção de uma nova.

Ao chegar no momento do licenciamento ou da solicitação de crédito bancário com estruturas tão precárias o produtor descobre que estas estruturas demandam tempo para serem projetadas e antes do projeto é necessário ainda coletar as informações e realizar algumas análises que vão orientar o projeto.

Como a maioria dos produtores opera com prazos curtos há risco perda da época do plantio, da colheita ou de um ciclo de produção do rebanho já que fica difícil encaixar o cronograma do projeto no cronograma de produção. Em outros casos o atendimento é possível, mas por conta da exigência de prazo o valor cobrado sobe. Como esta situação se repete com frequência com muitos produtores fica sedimentada a ideia de que o engenheiro é careiro.

Mas eu falei até aqui e não entrei no assunto: Quais são as oportunidades e desafios para engenheiros civis no meio rural?

As oportunidades

Toda propriedade rural precisa de água em volumes consideráveis para tocar sua produção. Estes volumes são obtidos por captação superficial realizada em nascentes, córregos, rios, açudes e represas ou por captação subterrânea realizada em poços cacimba ou tubulares profundos.

Fonte: http://1.bp.blogspot.com/-EI7IHDSo6lY/UAXMl0u4FRI/AAAAAAAAC7g/Z9WGWAqQwbg/s1600/irrigacao-e-ciclo-hidrologico.jpg
Ciclo hidrológico – Fonte: http://1.bp.blogspot.com/-EI7IHDSo6lY/UAXMl0u4FRI/AAAAAAAAC7g/Z9WGWAqQwbg/s1600/irrigacao-e-ciclo-hidrologico.jpg

A quantidade de água disponível para captação é definida a partir de estudos hidrológicos, se a captação for superficial, ou hidrogeológicos, se a captação for subterrânea. Em seguida é preciso consultar o órgão que emite as licenças para ver quanto da água disponível já está outorgada para uso. Dependendo do tamanho da área de interesse do estudo é bastante recomendável o uso de ferramentas de geoprocessamento para se chegar a resultados de forma mais rápida e confiável.

Sabendo que o volume requerido é passível de licenciamento, pode-se dar entrada no pedido de licenciamento apresentando a documentação necessária. Paralelamente pode-se iniciar os projetos de captação, irrigação ou distribuição de água para consumo dentro das propriedades.

Se a captação for subterrânea será necessária a presença de geólogo, geofísico ou engenheiro que tenha habilitação específica para conduzir as investigações necessárias e encontrar o local adequado para a implantação e elaborar o projeto de perfuração do poço a ser apresentado ao órgão ambiental e executado.

Se a opção for por uma captação superficial e a disponibilidade hídrica superficial for inferior ao volume pretendido pode-se recorrer à regularização de vazões através da construção de uma barragem (geralmente de terra) para represar durante o período chuvoso o volume de água necessário para uso e para atendimento à vazão necessária para uso e manutenção do corpo do rio no período seco.

Neste caso serão necessários: estudos geológico e geotécnico da área onde será construída a barragem e das áreas que fornecerão o material utilizado no aterro; projeto de fundações, de compactação e controle de permeabilidade do aterro; estudos hidrológico e hidráulico para dimensionamento do vertedor, do descarregador de fundo e das estruturas extravasoras para garantir que a barragem escoe a vazão mínima no dia-a-dia e a vazão de cheia no período de retorno estipulado em norma (mínimo de 200 anos); projetos de fundações e estruturais do vertedor e das paredes e lajes que compõem o canal extravasor; e o acompanhamento da obra para que tudo seja executado de acordo com os projetos elaborados.

É comum encontrar em propriedades rurais caixas d’água e reservatórios com capacidade para 10, 50, 100 mil litros de água. Em muitos casos, por falta de projeto hidráulico, o local onde estas caixas d’água estão colocadas foi escolhido de forma inadequada, gerando ineficiência no sistema de bombeamento da água da captação até a caixa ou no atendimento aos pontos de consumo. Outro problema são as fundações inadequadas ou inexistentes que diminuem a vida útil da caixa ou do reservatório, forçando a substituição ou reparos frequentes.

Outro problema encontrado com frequência são os sistemas de irrigação subdimensionados ou superdimensionados. Os sistemas subdimensionados levam a prejuízos na produção por falta de água para atender a todos os pontos de consumo. Muitas vezes o problema ocorre por sucessivos acréscimos feitos na rede sem análise prévia do impacto deles na capacidade de atendimento. Os sistemas superdimensionados levam a desperdício de água e dificuldades no licenciamento pois os relatórios fotográficos que obrigatoriamente acompanham os pedidos de licença mostram uma infraestrutura de captação ou irrigação com capacidade superior à que o requerente está solicitando, causando no órgão ambiental a desconfiança de que o produtor rural está mascarando seu real consumo por má fé.

Nas propriedades que trabalham com animais confinados há oportunidades para projetistas estruturais e de fundações na construção de aviários e estábulos, por exemplo. Nas propriedades em geral, no projeto estrutural e de fundações de galpões, edifícios sede e outras edificações de apoio à produção. Em muitos casos estas estruturas são construídas por pequenos empreiteiros ou pessoal da propriedade mesmo e não apresentam resistência, por exemplo, contra esforços provocados por ventos, recalques, peso da cobertura etc. Aqui há ainda um ganho porque são estruturas que podem ser padronizadas permitindo que o engenheiro adapte alguns itens do projeto e consiga replicá-lo em várias propriedades.

Os desafios

Dá um pouco de trabalho convencer o produtor rural a contratar serviços de topografia, batimetria, sondagem e análise de solo, essenciais para o desenvolvimento de soluções adequadas. Neste momento o produtor começa a contabilizar os preços e começa a achar tudo muito caro porque ele tem como referência os serviços prestados por profissionais não habilitados.

É necessário conversar bastante, explicar as fragilidades de um projeto elaborado por não habilitados, explicar sobre as garantias de custo, desempenho e vida útil de um projeto elaborado por profissional habilitado e, sempre, colocar na ponta do lápis as duas alternativas para mostrar que embora pareça vantajoso no começo a infraestrutura implantada sem projeto terá impactos em termos de vida útil, desempenho e produtividade que a farão ser mais cara do que o projeto feito de forma adequada.

Conseguir as informações necessárias para o projeto também dá um pouco de trabalho. É necessário conversar com o produtor, com os funcionários, com prestadores de serviço, arrendatários… Em muitos casos o proprietário contrata o projeto, mas não consegue fornecer informações precisas ou porque nunca fez o controle delas ou porque não há uma pessoa para isto ou porque é um arrendatário quem toca a propriedade etc.

Há também uma dificuldade em conseguir mão-de-obra qualificada na área rural já que a maioria dos trabalhadores é atraída para a área urbana. Muitas vezes, para reduzir custos, o produtor quer que o projeto seja executado por pessoas sem a devida experiência, mas que já prestaram serviços para ele antes, o que não é ideal dependendo da complexidade da estrutura a ser implantada. Novamente é necessário explicar que há questões de custo, qualidade e adequação a observar no médio e longo prazo que dependem de os serviços serem prestados por pessoas que conheçam o que estão fazendo.

É necessário estar sempre atento à legislação ambiental pois muitas vezes a solução imaginada esbarra em alguma restrição ambiental e se levada adiante fará com que o contratante responda depois junto aos órgãos ambientais pelo dano causado pela implantação da infraestrutura. Em caso de dúvida é interessante entrar em contato com o órgão ambiental explicar o que se pretende fazer e pedir instruções de onde verificar eventuais restrições. Em geral, os funcionários dos órgãos são bastante solícitos com este tipo de questionamento preventivo.

Conclusões

Vejo poucos engenheiros civis atuando nas propriedades rurais e imagino que as dificuldades citadas pesem na decisão de muitos colegas de não trabalhar no meio rural, no entanto, as possibilidades são promissoras.

Existe demanda em praticamente todas as áreas de projeto e execução de obras civis, a demanda é mais estável do que no meio urbano, sofrendo menos retração em períodos de crise e há projetos desde os mais simples até os mais complexos sendo demandados, o que significa que desde os engenheiros mais jovens até os mais experientes podem se beneficiar entrando neste mercado.

A entrada de mais engenheiros civis neste mercado também ajudaria a regular os preços para o consumidor final, sinalizaria aos cursos a necessidade de inclusão das demandas do setor na formação dos alunos (maior qualificação em meio ambiente, geoprocessamento, obras de terra, projetos de irrigação e outras), melhoraria o desempenho e produtividade, principalmente de pequenos e médios produtores, e reduziria o desperdício de insumos de construção e de água nas propriedades.

Advertisements
Imagem padrão
Engenheiro no Campo
Engenheiro no Campo é o heterônimo de um Engenheiro Civil que atua em projetos de licenciamento de uso de recursos hídricos e infraestrutura rural. Não possui site, redes sociais, whatsapp, email ou telefone. Mora em uma cabana tranquila à beira de um lago silencioso formado por pensamentos.
Artigos: 1

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: